No Rio Grande do Sul, essa característica é ainda mais acentuada. Estiagens e secas respondem por 41,63% dos registros estaduais, enquanto enxurradas representam 16,49%; chuvas intensas, 14,04%; e vendavais e ciclones, 11,61%. Segundo Murara, a elevada incidência desses desastres resulta de uma combinação de fatores. “A posição geográfica do Sul favorece o encontro de diferentes sistemas atmosféricos; a região recebe grande quantidade de umidade e apresenta condições para precipitações intensas; e características do relevo e da rede hidrográfica também influenciam os impactos produzidos pelas chuvas. El Niño e La Niña acrescentam variabilidade a essa dinâmica”, explica o professor. "A Região Sul apresenta elevada incidência de desastres porque reúne condições atmosféricas favoráveis à ocorrência de eventos extremos, elevada disponibilidade e variabilidade de umidade, atuação frequente de frentes frias, ciclones e sistemas convectivos, além de uma extensa rede hidrográfica e áreas urbanas e rurais expostas. No Rio Grande do Sul, essa condição é particularmente evidente porque o estado apresenta simultaneamente elevada recorrência de estiagens e secas e forte suscetibilidade a chuvas intensas, enxurradas e inundações. Assim, a elevada incidência de desastres resulta da interação entre perigos climáticos, características físicas do território, dinâmica hidrológica e condições de exposição e vulnerabilidade da sociedade", acrescenta.
Mas há outro componente fundamental: a ocupação do território. Como sintetiza Murara, “o clima produz perigo. A sociedade transforma o perigo em desastre”. Isso significa, segundo o professor, que “compreender um desastre exige olhar não apenas para o fenômeno meteorológico, mas também para o território onde ele ocorre, para as populações expostas e para suas condições de vulnerabilidade. Os impactos acumulados ajudam a dimensionar essa questão. Entre 1991 e 2025, os desastres registrados na Região Sul deixaram 802 mortos, 3,5 milhões de pessoas desabrigadas ou desalojadas e mais de 15,6 milhões diretamente afetadas”, comenta.
Para Murara, é justamente aí que está uma das contribuições de observar os desastres a partir de uma perspectiva histórica. Existe um histórico que mostra que eles já ocorriam. Entretanto, reconhecer esse histórico, não significa considerar que as condições permanecem as mesmas. A maior ocupação das áreas urbanas e as transformações realizadas nesses espaços interferem na maneira como um fenômeno climático se converte em desastre. “Há dez anos, qual era a quantidade de pessoas que viviam naquela área e qual é hoje? Aumentou na área urbana. Tem mais impermeabilização do solo, então a água não infiltra, ela escorre muito mais rápido para os canais fluviais, para o rio, e vai dar inundação mais rápido que antes”, exemplifica.
A esse cenário soma-se a atuação do El Niño. Murara destaca que o fenômeno está associado a uma maior probabilidade de aumento das chuvas no Sul. Assim, eventos que possuem precedentes históricos ocorrem hoje sobre territórios mais ocupados e modificados e sob uma condição climática que pode favorecer maiores precipitações. Olhar para o passado, nesse sentido, não significa dizer que o presente é apenas uma repetição.
A série histórica ajuda a reconhecer padrões de risco, enquanto as transformações do território e as condições climáticas atuais ajudam a explicar por que eventos conhecidos podem resultar em consequências diferentes — e potencialmente mais graves.
Leia outra matéria em que o professor Murara explica sobre riscos de um El Niño intenso no Sul do Brasil.